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“SÓ COMIA QUEM FOSSE TRABALHAR” | Quinze maranhenses que atuam na construção civil foram resgatados em alojamento na Região Metropolitana de Fortaleza

Um grupo de 15 trabalhadores da construção civil foi resgatado nesta semana, em Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Oriundos do Maranhão, eles não recebiam pagamento regularmente e eram mantidos em condições precárias, sem acesso à água potável e alimentação restrita, enquanto eram ameaçados a não denunciar o caso.

No entanto, a situação foi informada pelos próprios operários ao Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza (STICCRMF), que realizou o resgate na terça-feira (21). Quando foram encontrados, os homens estavam sem comer há mais de 24 horas.

Com a promessa de carteira assinada até o fim deste ano, cada um dos homens foi recrutado por indicação de conhecidos e, gradualmente, deixou o território de origem – a maioria da cidade de Santa Helena, a mais de 150km de São Luís – para atuar na construção de um condomínio na zona rural de Maranguape, a cerca de 3 quilômetros do Centro. O membro mais antigo do grupo desembarcou no Ceará em janeiro deste ano.

Contudo, ao chegarem ao canteiro de obras, foram surpreendidos com um vínculo informal terceirizado, em que os pagamentos eram proporcionais ao volume de trabalho; ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPI); e um alojamento em condições precárias, sem água encanada e poucos móveis, explica o presidente do Sindicato, Nestor Bezerra.

No local, os 15 homens dispunham apenas de um reservatório d’água sujo, que era usado para consumo próprio e em tarefas domésticas, como banho e descargas, apurou a reportagem. Apesar dos imprevistos, os operários permaneceram atuando no canteiro de obras. A Cozinha não era equipada e eles não podiam preparar alimentação.

Segundo Nestor Bezerra relatou, a residência onde os trabalhadores estavam ficava próximo do local de trabalho. Era uma casa precária, sem água potável, móveis ou alimentação básica. Eles chegavam a passar dias inteiros com fome e dormiam em redes espalhadas pelo local.

Após o resgate, o grupo foi levado até uma delegacia da cidade para registrar um boletim de ocorrência (BO). Em nota, a Polícia Civil disse que apura as circunstâncias do caso. “O caso foi registrado por meio de um Boletim de Ocorrência (BO), protocolado na terça-feira (21), pela Delegacia de Polícia Civil de Maranguape”.

“Conversamos com o delegado, que deu todo o suporte para a gente e mandou uma viatura buscar as coisas deles porque estavam com medo de ir na casa”.

Segundo Nestor, os trabalhadores agora estão em local seguro e aguardam retorno para o Maranhão.

Em nota, o Ministério Público do Trabalho (MPT-CE) disse que tomou conhecimento do caso e, em razão disso, “já foi instaurada uma Notícia de Fato para apuração das circunstâncias relacionadas ao ocorrido”.

 

“Só comia quem fosse trabalhar”

Os trabalhadores mantinham contato com a família através de telefones compartilhados entre eles. No entanto, sem acesso à Internet wi-fi e redes móveis, as ligações e mensagens foram ficando mais escassas.

“Quando a empresa traz o trabalhador, é para dar todas as condições: café da manhã, água potável, água para tomar banho. Na casa não existia bebedouro, geladeira, nem água encanada. Eles estavam à mercê da própria sorte.”

Segundo o presidente da STICCRMF, as refeições eram fornecidas pelo empreiteiro da obra, mas o homem dizia que “só comeria quem fosse trabalhar”. “Passaram a última terça-feira sem comer”, exemplificou Nestor.

“A gente chamou a empresa, que disse que ia pagar as rescisões deles e o translado para irem para casa. De hoje até amanhã, vão estar efetuando os pagamentos deles. Eles vieram no intuito de ganhar o dinheiro deles e mandar pra família, mas se depararam com essa situação. Um deles me relatou que chegou aqui pesando 110 quilos, mas agora está com 87kg”.

Trabalhadores não tinham móveis no alojamento, dormiam em redes e guardavam suas roupas em malas e varal improvisado.

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