FILOMENO, MACURIM, A AMÉRICA LATINA E AS MELANCIAS

Por Erivelton Lago – Advogado – Presidente da ABRACRIM

Nos meus primeiros 14 anos de vida eu tinha dois grandes amigos: Filomeno e Macurim. Eles foram os meus dois primeiros “amigos de fé” entre os 7 e 14 anos de idade, eu e Filomeno morávamos no povoado de Bacuri, a casa dele era a única que tinha rádio. O cara era teimoso e tinha uma capacidade incrível de aprender ouvindo. O pai dele, o velho Jaqueira, era uma espécie de oráculo e conselheiro do povoado. Já por volta de 1974, todos nós já morávamos na cidade. Eu fui o primeiro a sair do povoado para morar em Bacabal na casa do meu avô materno, Oziel Lago. Nesse período, morando no bairro D’areia, me encontrei com Filomeno que passou a morar no mesmo bairro. Não vou ficar aqui, dizia ele, vou para São Paulo. Conheci Macurim na cidade, era meu vizinho e éramos companheiros de pesca no rio Mearim, criar passarinho e armar arapucas para pegar nambu e juriti. Bom, mas não é sobre isso que eu quero falar. O que quero falar é que um dia, antes de Filomeno partir para São Paulo, ele entrou num grande debate com Macurim, sobre a América Latina. Estávamos sentados na beira do rio Mearim, olhando as roças de melancia lá do outro lado esperando algum menino travesso com coragem suficiente de nadar até lá e trazer umas quatro delas sem que o dono visse. A conversa começou porque Macurim provocou Filomeno com a seguinte pergunta: Tu que és metido a sabido, quem criou a expressão “América Latina”? Respondeu Filomeno: essa expressão foi criada pelos franceses. Errou, disse Macurim, foi Napoleão Bonaparte. Mas Napoleão era francês, respondeu Filomeno. E digo mais: foi Napoleão III, o 1º presidente da segunda República Francesa e depois imperador dos franceses. Vendo que o novato era metido a inteligente, Macurim atacou com mais uma pergunta: então me respondes: por que ele criou essa expressão “América Latina”? Filomeno nem pensou e foi logo respondendo: por volta de 1860, o imperador tentava aumentar a sua influência no México, na época um país tumultuado por revoltas e guerras entre políticos liberais e conservadores. Um bom jeito de aproximar culturalmente os dois países era destacando o que eles tinham em comum, como a mesma origem do idioma. Tanto o francês quanto o espanhol e o português são línguas derivadas do latim. Macurim, perplexo, disse: é verdade, está lá na revista dos grandes personagens da história universal. Porém, nesse momento, Filomeno já estava em transe e não parou mais de falar. Ele queria mostrar que era bom de história, gostava de ler e adorava ouvir o seu velho pai falar. Disse mais, Filomeno: essa semelhança de línguas destacada pelo esperto imperador não só deixava a influência francesa mais natural como isolava os imperialistas ingleses e seu idioma anglo-saxão. Então perguntou Macurim: tu achas que o termo “América Latina” uniu e igualou os latinos? Respondeu Filomeno: não uniu e nem igualou, mas abrangeu. Reuniu sujeitos e povos dos mais diversos, mas não os igualou. Perguntou Filomeno a Macurim: Os ribeirinhos pobres do rio Mearim são iguais aos grandes fazendeiros só porque falam a mesma língua? Os índios que falam português são iguais aos filhos dos executivos das grandes multinacionais francesas só porque falam línguas derivadas do latim? Colocar todos no mesmo saco é igualar sujeitos tão diferentes quanto um fazendeiro branco da África do Sul e um pigmeu do Congo? Claro que não, pois a língua não iguala ninguém, mais sim, um bom discurso ideológico. Perguntou Macurim, já satisfeito com a oratória de Filomeno: na tua visão, o que iguala os latino-americanos, qual a semelhança entre esses países? Filomeno respondeu o seguinte: os latino-americanos não são unidos nem iguais. Porém, eles são semelhantes nos seguintes aspectos: os latino-americanos gostam muito de lamentar e reclamar de tudo. Gostam de encarar a cultura local como forma de resistência. Gostam muito de condenar o capitalismo sendo também capitalistas. Gostam de denunciar a dominação externa. E, finalmente, adoram cultuar e admirar heróis perversos, matadores e cruéis como: Pinochet no Chile; Videla na Argentina; Alvarez no Uruguai; Baby Doc no Haiti; Somoza na Nicarágua; Strossener no Paraguai; Fidel em Cuba e Jimenez na Venezuela. Acrescentou, Filomeno: em relação à Venezuela, vem coisa pior pela frente. Aqui ele já profetizava a existência de Chavez e Maduro no poder. Perguntou Macurim: e o Brasil, é diferente dos outros latinos? Respondeu Filomeno: sim, o Brasil é diferente e está saindo de uma ditadura para se tornar a democracia mais sólida da América Meridional. (Aqui estou para dizer que Filomeno acertou). Por fim, disse o garoto Filomeno a Macurim: Reclamar, por reclamar, nada vai adiantar, quando não se quer trabalhar. Resumiu Macurim, sem fazer mais perguntas: Filomeno, gostei da tua fala, agora estou certo de que “é principalmente conversando que as pessoas se entendem e qualquer olhar, além das aparências, pode nos levar à verdade.” Vamos tomar um banho no Rio Mearim e fumar um cigarro gaivota? Respondeu Filomeno: sim, vamos fumar e depois comer umas quatro melancias do outro lado do rio.

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