A tragé­dia anunciada.

Por Abdon Marinho

MANIFESTEI-​ME sobre a adoção de medidas de prevenção e contenção à proliferação do novo coronavírus no nosso estado, no dia 17 de março, portanto, há mais de um mês quase dois, alertava para a neces­si­dade das autori­dades tratarem o assunto com o máx­imo de transparên­cia e respon­s­abil­i­dade; dizia da neces­si­dade de infor­mações corretas aos cidadãos para que os mesmos não ques­tionassem (ou des­obe­de­cessem) as ori­en­tações rece­bidas; dizia da necessidade de se inve­stir em cam­pan­has educa­ti­vas nas esco­las, repar­tições, etcetera, de sorte que quando chegasse o momento certo todos soubessem o que fazer.

Naquela opor­tu­nidade, segundo dados ofi­ci­ais, não havia o reg­istro de qual­quer caso no Maranhão e, tam­bém, nos esta­dos do Piauí, Tocan­tins e Pará. Daí o ques­tion­a­mento sobre as medi­das de restrições que nos­sas autori­dades estavam adotando, já naquele momento, uma vez que com o pas­sar do tempo a tendê­cia das pes­soas seriam “relaxar” nas mes­mas.

Numa situ­ação de pan­demia as medi­das cer­tas pre­cisam ser ado­tadas nos momen­tos certos. Não adi­anta você ado­tar a medida errada no momento certo ou a medida certa no momento errado.

Não vai fun­cionar e só vai causar mais prob­le­mas na cabeça das pes­soas e favore­cer o aumento da con­t­a­m­i­nação.

Foi o que vimos nos diver­sos momen­tos deste surto pandêmico no estado. Nas primeiras medi­das do gov­erno as pes­soas cor­reram para se aglom­erar nos super­me­r­ca­dos, nas feiras, nos ban­cos, favore­cendo que hou­vesse con­tá­gios ou que este aumentasse.

Nos dias seguintes ape­sar das notí­cias das con­t­a­m­i­nações e das mortes poucos foram os que deixaram de seguir suas roti­nas de aglom­er­ações.

Ocorre a mesma coisa agora com o anún­cio de que a Justiça, através da Vara de Inter­esses Difusos, instou o gov­erno estad­ual a ado­tar a medida con­hecida como “lock­down”, em toda a ilha de São Luís, alcançando, além da cap­i­tal, os municípios de São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa.

Emb­ora se especule que a deter­mi­nação judi­cial faça parte de um “com­binemos” entre o Poder Exec­u­tivo, o Min­istério Público e o Poder Judi­ciário vi diver­sas pessoas especulando sobre isso na imprensa e redes soci­ais, inclu­sive um deputado estad­ual da base gov­ernista, vez que o governador do estado, que chamou para si a con­dução das medi­das de com­bate à covid-​19, não gostaria de assumir soz­inho a respon­s­abil­i­dade pela medida bem difer­ente de ape­nas cumprir uma decisão judi­cial –, o fato é que as medi­das ado­tadas pelas autoridades estad­u­ais ao longo deste tempo não sur­tiram efeito alme­jado.

E o pedido do Min­istério Público e a decisão do Juízo de Inter­esses Difu­sos combi­na­dos ou não com gov­er­nador do estado, com­pro­vam isso.

Aqui não ques­tiono a ded­i­cação e empenho do gov­er­nador do estado, do secretário de saúde, ou de tan­tos out­ros da sua equipe que estão tratando do assunto, mas, sim, o fato de que suas providên­cias para pre­venção e com­bate ao vírus não sur­tiram os efeitos desejados.

Se assim não fosse não teria havido neces­si­dade de inter­venção judicial.

A per­gunta que se faz é se com a medida judi­cial o enfrenta­mento ao vírus terá efe­tividade.

Fal­tava só o juiz man­dar que gov­er­nador fizesse o “lock­down” para que o vírus fosse com­bat­ido de forma cor­reta? Acred­ito que não.

E se con­cor­damos que não fal­tou empenho e ded­i­cação à equipe do gov­erno no com­bate à pandemia, como cheg­amos à situ­ação em que esta­mos hoje, cuja tendên­cia, ainda, é pio­rar e muito?

Vejam, até 17 de março, pelos dados ofi­ci­ais, da Sec­re­taria de Estado da Saúde e do Ministério da Saúde, não tín­hamos nem um reg­istro, um mês e meio depois, esta­mos entre os esta­dos que mais ofer­e­cem pre­ocu­pação.

A cap­i­tal do estado está entre as primeiras em número de infec­ta­dos e de mortos por 100 mil habitantes.

Já se tem notí­cias de pes­soas com sin­tomas claros de con­t­a­m­i­nação que não estão sendo testadas; ou de pes­soas em estado grave que as unidades de saúde não estão atendendo.

São notí­cias que chegam através de diver­sas mídias dig­i­tais que não sabe­mos serem verdadeiras ou não no momento em que são divul­gadas, mas que depois são con­fir­madas pela crueza dos números.

Então, é de deduzir-​se que, provavel­mente, a abor­dagem que o gov­erno estadual vem dando talvez não seja a mais cor­reta.

A cap­i­tal do estado, ocupa a sexta posição em número de óbitos, estando à frente, inclusive de Belém que pos­sui uma pop­u­lação com cerca de 500 mil habitantes a mais que a nossa;

Em número de con­tá­gio em todo estado, o Maran­hão pos­sui 3.506 con­tra 3.176 no estado vizinho, emb­ora o Pará pos­sua um número de óbitos superior ao nosso, 235 contra 204 mortos.

Em relação ao outro estado viz­inho a nossa desvan­tagem é ainda maior. O Piauí, pos­sui apenas 600 casos con­fir­ma­dos e 24 óbitos.

Nem fale­mos no outro viz­inho, o Tocan­tins, que pos­sui ape­nas 164 cidadãos con­t­a­m­i­nados e registra três óbitos, uma vez que a pop­u­lação é bem menor, o dis­tan­ci­a­mento social é quase natural.

Os qua­tro esta­dos, na mesma data, apre­sen­tavam situ­ações idên­ti­cas de nenhuma infecção, um mês e meio depois dois deles estão em pés­si­mas condições e dois conseguindo admin­is­trar melhor o prob­lema.

Ape­sar de todo o caos que me relatam está ocor­rendo no Pará, acred­ito, infelizmente, que nossa venha a se tornar ainda mais grave.

Digo isso porque tenho rece­bido relatos de pes­soas que estão com os sin­tomas da covid-19 e que não estão nas estatís­ti­cas ofi­ci­ais.

No último domingo, pelas 22 horas, recebi a men­sagem de uma pes­soa informando que uma grande amiga estava a cam­inho de São Luís, por estar com os sin­tomas da doença. Ontem, recebi a men­sagem de que essa amiga havia pere­cido. Detalhe, o municí­pio sequer aparece nas estatísticas pelo menos até aqui, com reg­istro de casos.

Como já dizia o cabo­clo lá do meu sertão, o que está errado não pode estar certo.

Então é per­ti­nente que se per­gunte o que o gov­erno estad­ual tem feito de errado na condução desta crise.

É bem provável que alguns digam que fez tudo certo e que a pop­u­lação que não aten­deu às recomen­dações ofi­ci­ais.

Os que pen­sam assim, decerto que estão cor­re­tos. Mas, se for­mos mais a fundo ire­mos encon­trar os motivos pelos quais a pop­u­lação não tem (ou tem pouco) colab­o­rado com as ini­cia­ti­vas governamentais.

Acred­ito que as respostas o prob­lema com­porta mais de uma, este­jam no descumprimento daquele apelo que fiz em mea­dos de março: que o gov­erno tratasse o assunto com seriedade, tran­quil­i­dade e, sobre­tudo, com transparên­cia.

Mais, que pas­sas­sem tal con­fi­ança a ponto dos cidadãos não ques­tionarem suas recomendações.

Infe­liz­mente, não foi o que se viu.

Desde o iní­cio o próprio gov­er­nador chamou para si a respon­s­abil­i­dade pela administração da crise e trans­for­mou a pan­demia numa frente de batalha con­tra o gov­erno fed­eral, sendo mais especí­fico, con­tra o pres­i­dente da República.

Aqui não dis­cuto se suas colo­cações estavam cer­tas ou erradas.

Estavam, sim, ino­por­tu­nas, pois a pop­u­lação pas­sou a enten­der que a pan­demia “não existia”, era ape­nas uma dis­puta política entre o governador/​candidato e o presidente/​destrambelhado.

O pres­i­dente dizia uma coisa de lá e o daqui respon­dia ou provo­cava de forma mais assertiva ainda.

O prefeito da cap­i­tal, que pela sis­temática do SUS é o gestor da saúde na cap­i­tal, talvez por educação ou timidez, deixou o gov­er­nador “tão à von­tade” para cuidar da saúde dos ludovi­censes respon­s­abil­i­dade do prefeito, que os adversários pas­saram a dizer que ele foi a primeira pessoa a entrar em quarentena.

Com­por­ta­mento bem difer­ente do que obser­va­mos no prefeito de São Paulo ou mesmo do de Teresina, que estão tomando as medi­das que dizem respeito à suas responsabilidades como gestores munic­i­pais.

O de Teresina, por exem­plo, instalou bar­reira san­itária nas pontes que ligam sua cidade ao Maranhão, jus­ta­mente para evi­tar que maran­henses doentes acorressem para aquela cidade.

Outra coisa, tudo que uma pan­demia pre­cisa para se alas­trar e matar a torto e a dire­ito é de informações trun­cadas ou ausên­cia de transparência.

Ao longo destes dias, inclu­sive, nesta sem­ana, não foi só uma ou duas vezes que uma entre­vista ou dados apre­sen­ta­dos pelo gov­er­nador não fos­sem con­tes­ta­dos pelos jornalistas e/​ou blogueiros da cidade.

Se a autoridade passa uma informação e ela é contestada e, pior, comprovada que não está certa ou que está truncada, os cidadãos passam a duvidar da própria circunstância a que estão sub­meti­dos

Ainda mais quando veem as autori­dades fazendo aquilo que pedem para que não façam.

Durante mais de uma sem­ana vi uma polêmica envol­vendo uma autori­dade da saúde que estava fazendo sua cam­in­hada por uma das avenidas da cidade. Em sua “defesa” a autoridade disse que estava andando soz­inho e seguindo os proto­co­los de segurança.

Acho até compreensível e necessário, que a autoridade queiram fazer sua caminhada. Mas já pensou o caos que seria se todos que estão se sentindo aprisionados em casa resolvessem seguir o exem­plo?

Em situ­ações de exceção, o exem­plo, a presteza, a transparên­cia, a con­fi­ança que a autoridade con­seguir trans­mi­tir, vai valer mais do que dis­curso, entre­vista, decreto ou sen­tença judi­cial.

Con­forme disse lá atrás, “medi­das urgentes e necessárias, pre­cisam ser ado­tadas no momento é pelo tempo certo”.

Quem tam­bém deu uma boa sug­estão, tam­bém, lá atrás, foi um prefeito de Santa Rita, Hilton Gonçalo: sug­eriu que o gov­er­nador do estado que colocou-​se no comando da pan­demia no estado, se cer­casse de uma equipe téc­nica com con­hec­i­men­tos na área da saúde para ado­tar as medi­das necessárias ao combate da pan­demia.

Espero que sua excelên­cia ouça esses apelos.

A situ­ação, que já é grave com essa pan­demia con­cen­trada, prati­ca­mente, na Ilha de São Luís e em poucos municí­pios do inte­rior, se tornará insus­ten­tável caso se alas­tre por todos os municípios do estado.

Abdon Mar­inho é advo­gado.

 

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